segunda-feira, 23 de agosto de 2010

FAUSTO



Fausto dos Santos
Nascimento: 28/1/1905, Codó-MA
Falecimento: 28/3/1939, Santos Dumont-MG
Período: 1928 a 1931 e 1933 a 1934
Títulos: Campeão Carioca (1929, 1934)
Posição: Médio



          “Maravilha Negra”








“Um maestro em campo. Assim era o maranhense Fausto, apoiador que, na Copa de 30, jogou tanto que ganhou o apelido de Maravilha Negra, dado pelos uruguaios. Foi o único jogador brasileiro que escapou do fracasso naquele Mundial. Encantava os vascaínos pela elegância, visão de jogo e liderança. Até o surgimento de Zizinho, foi o melhor meio de campo da história do futebol brasileiro.” (Revista Placar, QUEM É QUEM – 581 CRAQUES DO BRASIL)
  



Fausto
"Fausto teve uma infância difícil, por força da miséria no Nordeste brasileiro. Sua mãe, dona Rosa, queria um futuro melhor para o filho, coisa que dificilmente teria no interior maranhense. Por isso foi com a família tentar a sorte no Rio de Janeiro, então a capital e maior cidade do Brasil.

Naqueles áureos tempos em que os campos de futebol se espalhavam por todos os cantos da cidade, Fausto encontrou sua vocação, ao manter uma relação íntima com a bola. Ele a chamava de tu e ela o obedecia em todos os malabarismos que fazia, caindo sempre aos seus pés, como se uma escrava fosse. Era aquilo que hoje chamamos de domínio da bola.
Em 1926, Fausto, alto e magro, aparecia jogando como titular da equipe do Bangu Atlético Clube, atuando de meia atacante e mostrando sinais evidentes de que se tratava de um verdadeiro craque. Era bonito vê-lo tocar na bola, dar a matada no peito, driblar, fazer ginga, no desarme e na preparação do gol. Todas essas qualidades encantaram a Henry Welfare, um inglês radicado no Brasil e técnico do Clube de Regatas Vasco da Gama.
Fausto gostava do Bangu e era apegado aos companheiros. Por isso, resistiu para sair do clube vermelho e branco..."
(Blog "Só Vasco da Gama", Jorge Costa) 


"... ... nos campeonatos cariocas de 26 e 27, Fausto mostrava que era bom de bola. Porém, era mais conhecido pela sua vida boêmia.
Tinoco, um de seus muitos amigos de jornadas noturnas, jogava no Vasco da Gama e sempre insistia para Fausto vestir a camisa preta com a cruz do lado esquerdo do peito do clube de São Januário. Os principais argumentos eram que no Vasco ele ganharia fama e que Bangu era muito distante. Em 1928, Fausto cedeu aos apelos dos companheiros e se transferiu para o Vasco..." ("Fausto, de Codó para o mundo", José Rezende)


Jaguaré, Tinoco, Fausto, Itália e Brilhante - Vasco/1929
(recorte de foto publicada na Revista O MALHO)


 "... era o destino natural. O Vasco era um clube que procurava ascender, ao mesmo tempo combatendo uma odiosa, porém disfarçada, discriminação racial. Construíra, em 1927, o maior estádio do Brasil - o fantástico São Januário. Contratara para treinador o britânico Harry Welfare. O Vasco crescia e Fausto crescia também, à sua maneira.
No esquema de Mr. Welfare, anterior ao WM, o center-half era peça fundamental. E para essa posição foi escalado Fausto, formando com Tinoco e Mola uma das linhas médias mais famosas do futebol brasileiro. Com ela o Vasco conquistou, em 1929 o título de campeão carioca pela AMEA, Associação Metropolitana de Esportes Atléticos. Mesclava jogadores novos - como Fausto e Jaguaré, um excepcional goleiro - com veteranos campeões de 1924, como Brilhante e Paschoal." (Placar  "As Maiores Torcidas do Brasil - VASCO", abril de 1979)


“Em 1929, a equipe do Vasco, formada por jogadores do naipe de Brilhante, Itália, Fausto , Santana e Russinho, foi uma das melhores de sua história. Com apenas uma derrota, o esquadrão de São Januário terminou o campeonato empatado com o América, que, tendo conservado a base de 28, foi um adversário difícil. Pela primeira vez o título de campeão carioca teria que ser decidido numa melhor-de-três.
A primeira partida, disputada nas Laranjeiras, foi equilibrada e terminou com um empate em branco. Mas o América levou azar, já que Osvaldinho chutou um pênalti na trave. No segundo jogo, ainda nas Laranjeiras, deu outro empate – 1x1, com gols de Russinho para o Vasco, e do inevitável Osvaldinho para o América. A finalíssima, ainda no campo do Fluminense, foi sensacional. Mexendo com os nervos da torcida, o jogo bateu todos os recordes de público da época, proporcionando a assombrosa renda de 130 contos de réis. Com 3 gols do centroavante Russinho, um de Mário Mattos e outro de Santana, o Vasco aplicou um memorável 5x0 no time rubro, sagrando-se campeão.” (O Expresso da Vitória, uma história do fabuloso Vascão “Machão” da Gama – Abraham B. Bohadana)

Vasco - Campeão Carioca de 1929
Em pé - Paschoal, Oitenta-e-quatro, Tinoco, Russinho
Mário Matos, Fausto, Santana e Mola; agachados - Brilhante, Jaguaré e Itália.

No seu ótimo livro "O Negro no Futebol Brasileiro", o jornalista Mario Filho revela o temperamento e a importância do Maravilha Negra em São Januário:

"Fausto falava pouco, ia guardando o que tinha de dizer, de repente explodia, lá vinha tudo. Vingava-se dando gritos no vestiário, dando pontapés no campo.
Pouco antes do time entrar em campo, Harry Welfare reunia os jogadores. Era o momento das instruções... ...Welfare nem se atrevia a dizer “faça isso ou aquilo”. Se Fausto brigasse com ele, com quem quer que fosse no Vasco, o Vasco ficaria com Fausto. Quanto mais jogava, mais força tinha dentro do Vasco. Entreva em São Januário de chapéu no alto da cabeça, o paletó desabotoado, a camisa sem um botão, deixando aparecer um pedaço da barriga preta. E olhava para todo mundo de cara amarrada, para ver se alguém não gostava...
Fausto, se estava doente, nem se queixava, bom ou doente tinha de entrar em campo. Também o jogador que estivesse na frente tratasse de tirar o corpo fora. Fausto não conversava, metia logo o pé. Vinha uma bola alta, ele levantava a perna como muma bailarina, as travas da chuteira dele passavam raspando pela cara do jogador do outro time. A bola era de Fausto, não era de mais ninguém.

Pena que Fausto fosse assim, um revoltado. Se não seria o maior center-half brasileiro de todos os tempos.

Welfare não se lembrava de nenhum center-half que tomasse conta de um campo como Fausto. Fausto ficava no grande círculo, as bolas vinham direitinho para onde ele estava. Parecia que ele atraía a bola. Não precisava entrar de sola, tomar a bola à valentona, ameaçando todo mundo..." ("O Negro no Futebol Brasileiro", Mario Filho - trechos das páginas 171 e 173)

Fausto - o que fez do futebol uma arte
"O ano de 1930 vai encontrar Fausto dos Santos como um jogador muito popular, ídolo entre os vascaínos, adorado pelas mulheres que frequentavam os cabarés. Já havia sido selecionado para alguns jogos das Seleções Carioca e Brasileira.
Era ano de Copa do Mundo – a primeira – e os cartolas, para variar, não chegavam a um acordo, perdidos no bairrismo que opunha cariocas e paulistas. Resultado: saiu do Brasil uma Seleção formada por jogadores vinculados ao futebol do Rio, exceção de Arakem Patuska, que pegou o navio em Santos, pois estava brigado com seu clube, o Santos” (Revista Placar Especial VASCO, abril/1979)



"Fausto seguiu com a delegação brasileira e, na capital uruguaia, atuou contra a Iugoslávia e a Bolívia. Suas duas notáveis exibições extasiaram a crônica esportiva e o público uruguaios. Os jornais estampavam manchetes, referindo-se a Fausto como a “Maravilha Negra”.
Brasil na Copa do Mundo de 1930
Fausto é o segundo em pé, da esquerda para direita. Antes dele está o Brilhante.
O quarto jogador em pé é o Itália.
Os três, mais o Russinho, eram os representantes do Vasco no Mundial do Uruguai

Na estréia na Copa do Uruguai, o Brasil perdeu para a Iugoslávia por 2 a 1 e venceu a Bolívia por 4 a 0. Porém, a vitória iugoslava diante dos bolivianos por 4 a 0 tirou o Brasil do mundial. Apesar da eliminação brasileira, o futebol de Fausto estava consagrado.

Em 5 de setembro de 1931, na véspera de uma partida contra o Uruguai, no campo do Fluminense, pela Copa Rio Branco, Fausto recebeu do próprio médico da CBD a notícia de que não jogaria. Uma forte gripe o deixara de cama por vários dias no dormitório de São Januário. Eram os primeiros sintomas da tuberculose. A vida boêmia deixava suas marcas.
Seu futebol continuava o mesmo, mas as freqüentes gripes impediam que suas participações nos jogos fossem constantes. (Blog Só Vasco da Gama, Jorge Costa)

“A Copa transformou Fausto numa espécie de deus para os vascaínos. A partir daí, era figura obrigatória nos noticiários dos jornais, nos bares da Lapa, nas rodas de boemia da cidade.

Sofria a discriminação, revoltava-se, explodia, dentro e fora de campo. Faltava a jogos – ou estava gripado ou expulso, punido pela Liga.
Em 1931, o Vasco foi o primeiro clube carioca a excursionar pela Europa... No primeiro jogo, o Vasco perdeu para o Barcelona por 3 a 2 – mas Fausto ganhou imensa popularidade. E o prestígio subiu, dia seguinte, na revanche, quando o Vasco venceu por 2 a 1.
... Pronto, Fausto tinha conquistado a Espanha. La Maravilha Negra passava a ser também uma definição espanhola.
... Da Espanha, o Vasco foi para Portugal... oito jogos, seis vitórias, um empate e uma derrota.” (Revista Placar Especial VASCO, abril/1979)


Jaguaré e Fausto, do Vasco para o Barcelona.


O Vasco encantou platéias européias, deu show de bola e voltou sem dois de seus principais jogadores: o goleiro Jaguaré e Fausto. Eles não resistiram ao encanto das pesetas espanholas e assinaram contrato com o Barcelona.




Fausto e Jaguaré foram alvos de críticas ofensivas por parte da imprensa. A resposta dos dois eram suas atuações que se transformavam em grandes vitórias para o Barcelona.


 Pelo clube espanhol, o negro brasileiro foi a Paris e recebeu do jornal “France Football” este elogio: "Ele faz com espantosa facilidade o que outros fariam com um esforço sobre-humano. Fausto, com seu futebol maravilhoso, veio ensinar à Europa como deve jogar um center-half".

“Mas já era um homem doente. Seu estado se agravava a cada noitada, a cada esforço que fazia em campo. Com o Barcelona, foi campeão da Catalunha. Mas a derrota ante um clube húngaro apressou sua saída da Espanha. Foi para o Young Fellows, da Suíça. Ficou pouco (apenas dois meses). Em 1934, mais magro, sem vintém, estava de volta ao Vasco. Pagaram 7 contos por seu passe.

Apesar de tudo, Fausto ainda era ídolo, e a torcida prestigiou o Vasco, que voltou a ser Campeão Carioca – pela Liga Carioca de Futebol -, com um super time: Rei, Domingos da Guia e Itália, Gringo, Fausto e Mola, Orlando, Almir, Gradim (ou Leônidas da Silva), Nena e D’Alessandro.

Por ser profissional e, portanto, não filiado à CBD, que na época defendia o amadorismo, Fausto não pôde ir à Copa do Mundo na Itália, em 1934. Mas em 1935, com a mudança de mentalidade, Fausto estava de volta às seleções Carioca e Brasileira.” (Revista Placar Especial VASCO, abril/1979)



Friedenreich, com o cabelo alisado,
 é homenageado durante jogo da Seleção Carioca.
Fausto, à direita, observa.
(foto publicada no livro
"BRASIL UM SÉCULO DE FUTEBOL")
"Ainda em 1935, o Nacional de Montividéu o contratou. No Uruguai não teve o mesmo brilho de antes, sendo expulso de campo em quase todos os jogos. Com a saúde bastante abalada o craque brasileiro não conseguia mais correr os dois tempos de uma partida. E por isso voltou ao Brasil, em 1936, para jogar no Flamengo. No clube rubro-negro teve o azar de se deparar com o técnico húngaro Dori Kruschner, fã do sistema WM que consistia de 3 beques, 2 médios, 2 meias e 3 atacantes e um rígido treinamento físico, até então inédito no país. Fausto já não tinha gás, por isso o técnico o escalou na zaga. Fausto não gostou e pediu rescisão do contrato, que lhe foi negada no clube e na Justiça." (Blog "Só Vasco da Gama", Jorge Costa)




"Em 1938, porém, vendo-se sem chance e humilhado, Fausto se retratou em carta exaltando o trabalho de Kruschner. O “Maravilha Negra” ainda voltou a jogar com o aparente talento de sempre. E foi até cogitado para a Seleção Brasileira que iria à Copa do Mundo, disputada na França, em 1938. Mas a velha e cruel gripe, cheia de tosse, veio abatê-lo de novo. Uma tarde, após jogar entre os aspirantes do Flamengo, sentiu-se mal e teve hemoptise. Quando quis retornar aos treinos, em 1939, os médicos o enviaram ao Sanatório Mineiro, escondido nos cafundós do Estado de Minas Gerais, sem muita esperança de curá-lo da tuberculose.

Sob os cuidados da irmã Catarina, abnegada freira que lhe incutiu a fé cristã através de doutrinação oral e de um livro emprestado, o negro que viera do Rio de Janeiro viveu seus últimos momentos. Ao início da noite, depois de arder em uma febre de graus elevados, com a respiração sôfrega e os pulmões corroídos, Fausto, aos 34 anos de idade deu seu último suspiro.
E por lá mesmo Fausto dos Santos foi enterrado sem grandes pompas em cova rasa, cravada por uma tosca cruz de madeira, sem nome nem data. Morreu tendo conquistado 2 títulos cariocas para o Vasco, em 1929 e em 1934 e marcando seu nome como um dos maiores futebolistas de todos os tempos! E morreu na miséria. Um fim triste para um jogador que, menos de uma década antes, encantara o mundo.” (Blog "Só Vasco da Gama", Jorge Costa)



Fausto dos Santos, a Maravilha Negra, teve uma das carreiras mais brilhantes, rápidas e trágicas do futebol brasileiro!



Itália e Fausto

"Com o seu elegante estilo de matadas no peito, exímio controle de bola e passes longos, esse mulato alto e forte foi o primeiro de uma escola brasileira de jogadores clássicos de meio-campo. Também tinha uma coragem de leão e jamais brincava em serviço, sendo vigoroso na liderança dos companheiros."
(Mauro Prais) 







Fontes:

- Livro "O NEGRO NO FUTEBOL BRASILEIRO" (Mario Filho)
- Revista Placar Especial "As Maiores Torcidas" - VASCO (abril, 1979)
- Blog "Só Vasco da Gama" (http://sovascodagama.blogspot.com/), Jorge Costa.
- Site do Mauro Prais (www.netvasco.com.br/netvasco)
- Livro "O Expresso da Vitória, uma história do fabuloso Vascão “Machão” da Gama" (Abraham B. Bohadana)
- Blog do Oliveira Ramos
(http://www.jornalpequeno.com.br/blog/oliveiraramos)

- Texto de José Rezende ("Fausto, de Codó para o mundo") no site da ABI (http://www.abi.org.br/)


2 comentários:

  1. Em tempo... Quero deixar registrado meu agradecimento a minha amiga Ana Paula Mairen que "deu um trato" na imagem do Fausto que usei para fazer a "figurinha" que abre a página do Maravilha Negra. Valeu, Paulinha!!!

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  2. Muito bom o trabalho de resgate , parabéns !

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